[Inventário de Corpo]
“O inferno são os outros”
Sartre
A história do meu corpo, naturalmente
se inicia no dia do meu nascimento há quase vinte dois anos. Numa família ativa
e fielmente católica. Fui criado dentro de casa. Não saía pra brincar na rua e
o pouco contato que tinha com crianças era na escola. Na escola a gente não
aprende mais do que reproduzir um quadro de algum pintor famoso como “Banana e
metal” de Pedro Alexandrino ou “O mamoeiro” de Tarsila do Amaral. No período da
infância queria ser médico, pois sentia necessidade de cuidar das pessoas e
curiosidade em saber como o corpo humano funciona. Até o ano de 2005 eu não me interessava pelas
artes.
Desde pequeno a gente aprende
a repudiar as coisas que a sociedade repudia. No meio em que eu cresci a arte
não era vista como uma opção de vida, um caminho a seguir, mas era vista como um
lazer. Inclusive para meu pai, era apenas uma forma “de tirar o jovem das ruas,
das drogas”.
Até os treze anos eu era
completamente bloqueado. De mente e corpo. Sempre fui muito tímido.
Inexpressivo. Não gostava de me mostrar muito. Não queria que as pessoas vissem
no meu jeito de ser, falar, e me mover, certa feminilidade que fazia com que eu
passasse parte da minha vida escolar com medo dos outros me acharem “boiola”. O
que inevitavelmente sempre acontecia.
Por isso tinha certos
preconceitos. Lembro-me de assistir uma apresentação do grupo de teatro da
escola e dizer: “Eu? Apresentar algo? Dançar assim com essa roupa super colada?
Nunca!”. Por mais que eu tivesse achado legal a apresentação eu jamais
admitiria. Dança, teatro, arte eram “coisas de veado”. Eu já sofria com
piadinhas não sendo e tentando não parecer um, imagina se fizesse algo como o
que tinha visto. Mesmo achando legal.
Segundo Rubem Alves, "quando
uma mentira é muitas vezes repetida como verdade, ela passa a ser considerada
verdade". Eu repetira tantas vezes que esse não era eu, que não deixava meus
verdadeiros desejos virem à tona. Por vergonha, sim, afinal eu tinha medo da
“verdade” repetida no meio onde eu estava.
Um ano depois, já em 2006, quebrei
as primeiras correntes que me prendiam a um eu, que não era o que eu queria
ser. Entro para o grupo de teatro que criticara um ano antes. Pensei: “Se eu
faço de tudo, desde controlar certos trejeitos gestuais a não falar o que penso
ou quero, para não parecer gay, as pessoas falam do mesmo jeito, então eu quero
que se danem. Eu vou fazer o que eu quero”.
Nesse
grupo fiz e aprendi várias coisas. O que contribui com meu desejo de levar mais
adiante esse caminho: ser ator. De quando entrei no teatro foi questão de um
pouco mais de um ano para assumir para mim mesmo a minha homossexualidade, e
mais adiante assumir para as outras pessoas de meu convívio. A auto aceitação é o primeiro passo para
romper com a autonegação.
Porém, ainda sentia falta de
um estudo mais aprofundado no teatro, pois no grupo apenas tínhamos a vivência
teatral. Assim, aos dezoito anos, em 2010, meu pai me aconselhou a procurar um
curso técnico (não necessariamente relacionado à arte). Eu procurei o Centro
Paula Souza, e encontrei a ETEC de Artes, onde havia o curso de dança. Na
verdade queria teatro, mas sabia que a dança me ajudaria bastante com expressão
corporal, que eu acreditava ser fraca, travada. Mas eu nunca tinha dançado. No
edital do Vestibulinho da ETEC não falava que a pessoa já tinha que dançar, mas
tinha que fazer uma prova de aptidão. Geralmente as pessoas já vão pra esses
cursos com alguma bagagem, e eu não tinha nenhuma. Mesmo assim me inscrevi e fiz
a prova.
Meus pais estranharam bastante
minha escolha. Mas não me negaram apoio. Com meu pai eu aprendi a sonhar. Com
minha mãe eu aprendi a tornar meus sonhos realidade. Então não seria coerente outra
conduta deles, principalmente meu pai, a não ser me apoiar nos meus objetivos,
sendo que eles sempre me ensinaram a ir atrás deles e fazer realidade meus
sonhos.
Surpreendentemente eu passei.
E fui fazer o curso. Mesmo com todas as inseguranças sobre nunca ter dançado ou
sobre o futuro que um artista pode ter. Foi um desafio. Diferente do que eu
pensava, não era só aprender alguns passos. Era necessário corrigir os vícios
de postura que não favoreciam os movimentos, e que em mim eram muitos como um
quadril muito basculado, o qual eu só fui tomar consciência ao final do
primeiro semestre e que até hoje é um desafio corrigir. Também não era só uma
questão de decorar os exercícios e executá-los com limpeza, mas também me era
exigido consciência. Consciência do meu corpo, do espaço, dos meus movimentos. Tudo
que eu não tinha. Como alguém completamente desengonçado, descoordenado,
desmemoriado, evasivo como eu iria aprender a trabalhar tudo isso? Era difícil ter um mínimo de autoconfiança
quando você confronta o que você é com o que você quer ser.
Mas eu tinha um sonho. E se a
gente não se põe a lutar por um sonho, seja qual for, esse sonho ao invés de se
tornar uma realidade, torna-se uma frustração. Eu tinha, e tenho o sonho de ser
artista, viver de e com arte. E mais do que isso, de ser educador, de
compartilhar com outras pessoas a arte que eu vivenciei. A arte que transforma
e que educa, como aconteceu comigo, que fui e estou sendo a cada dia
transformado e educado.
O mais complicado foi aprender
a comparar meu processo de aprendizado comigo mesmo. No curso de dança da ETEC
havia gente com várias histórias. Gente que dançava desde criança, que
praticava diferentes tipos de dança, e que como eu nunca havia dançado. Certas
aulas eram mais fáceis para uns do que para outros. Pra mim, havia muita
dificuldade em certas princípios como a coordenação motora, sustentação, a
sensação do meu corpo e a presença desse corpo no espaço, e sempre ficava
aquela sensação de que todo mundo conseguia fazer menos eu. Com o tempo eu fui
aprendendo que cada um tinha um processo e um tempo pra esse processo
acontecer. E ter um tempo lento não é sinônimo de burrice. O que eu tinha era
que analisar o meu ponto de partida e o meu ponto de chegada.
Na ETEC encontrei pessoas que
me motivaram. Que acreditaram em mim. Pessoas que me mostraram que era possível
dançar. Pessoas que com suas aulas, teóricas e práticas, me mostravam que eu
precisava melhorar muito, mas que o modo em que eu sai era bem diferente do
qual eu entrei. Mais do que diferente, sai instigado. “Lidar com o próprio corpo é lidar com um conflito. Um conflito que não
acaba nunca”.
Mas o monstrinho da
insegurança ainda se fazia presente. Mais ainda, quando me deixava influenciar
pelo que as pessoas iam pensar. É muito difícil colocar-se sob o olhar do
outro. Principalmente quando se sabe que esse outro está te avaliando,
construindo uma crítica e às vezes até uma expectativa em cima da gente, e que
essa crítica pode significar um “continue o seu caminho” ou “desista e procure
outra coisa”.
Quando se está sob o olhar
avaliativo de outra pessoa é perigoso a gente querer mostrar-se demais, numa
tentativa de se auto afirmar diante desse olhar, ou de se bloquear por completo
e não mostrar nada do queria passar. Como chegar ao equilíbrio? Como não ser um
exibicionista de suas habilidades? E como não se deixar intimidar pelo olhar,
pela opinião alheia, ou até mesmo pelo próprio reflexo no espelho? Essa noção
de até quando posso deixar o olhar do outro (ou o meu próprio olhar) me
influenciar foi de crucial importância depois que sai da ETEC e prestei
vestibular.
Prestei o vestibular para
dança três vezes. Fiz a prova de habilidades específicas três vezes. Na
primeira, não havia me preparado. Dei prioridade a uma pesquisa minha acerca do
meu próprio processo de aprendizagem em dança que estava desenvolvendo na ETEC.
Resultado: não passei. No segundo, preparei-me um pouco mais com aulas de
ballet e contemporâneo, mas ainda tinha inseguranças em meu corpo e não passei.
Na terceira vez busquei preparar meu corpo e minha mente. O corpo com mais
aulas de ballet, criação e oficinas, além da minha vivência no grupo de teatro.
A mente com reflexões e leituras, não só sobre dança, mas também teatro, pois
também prestei vestibular para teatro. Dessa vez, não estava mais seguro que no
ano anterior, principalmente de corpo, pois ainda há muitos bloqueios no meu dançar:
postura, olhar, emoções. E quando nos
deparamos diante de uma barreira, somos obrigados a lidar com nossos próprios
defeitos. O modo como eu danço é completamente igual ao modo como eu lido
com o mundo e comigo mesmo. Procurei não encarar o passar como um fim ou um
objetivo a ser conquistado ou não, mas como uma consequência do que eu vivi
nesses poucos anos em que estive em cena tanto no teatro como na dança.
Passei.
E lanço-me diariamente em desafios em busca de minha própria identidade corporal e
mental.